PARIS · GABRIEL BUON · M.D.LXXXV

Les Œuvres d'Ambroise Paré

O livro que ensinou a cirurgia a largar o ferro em brasa.

Edição de 1585 · 28 livros · Dr. Alexandre Amato

O livro que você vê exposto neste consultório reúne as Œuvres — as Obras completas — de Ambroise Paré, na edição publicada em Paris em 1585 pelo impressor Gabriel Buon. É a quarta edição do livro, revista e ampliada pelo próprio Paré já no fim da vida: a última versão do texto que o autor viu impressa.

Quando foi publicada, a cirurgia ainda era ofício de barbeiros, e os feridos de guerra tinham as feridas queimadas com óleo fervente — porque se acreditava que a pólvora era venenosa. Paré foi o homem que ousou duvidar. Nas páginas deste volume estão a ligadura das artérias, o fim da cauterização cruel, próteses articuladas, tratados de anatomia, de venenos, de monstros e de viagens: meio século de cirurgia escrito por quem a viveu na primeira linha.

Esta página conta a história desse livro — e as curiosidades que fazem dele um dos objetos mais extraordinários da história da medicina.

Frontispício gravado das Œuvres de Ambroise Paré: frontão arquitetônico com alegorias, título central e a marca do impressor Gabriel Buon, Paris, 1585
A página de rosto · 1585 “Les Œuvres d'Ambroise Paré, Conseiller, et premier Chirurgien du Roy… A Paris, chez Gabriel Buon. 1585.”
I

O barbeiro que virou cirurgião dos reis

Ambroise Paré nasceu por volta de 1510 numa cidadezinha do noroeste da França, filho de barbeiro. Nunca frequentou uma universidade; mal sabia latim — numa época em que toda a medicina séria era escrita em latim. Aprendeu o ofício como aprendiz de barbeiro-cirurgião e como estudante no Hôtel-Dieu de Paris, o grande hospital da cidade.

Sua verdadeira escola foram os campos de batalha. Por mais de trinta anos, Paré acompanhou os exércitos da França em cercos e campanhas, tratando feridas de espada, de flecha e da arma nova que mudava a guerra: o arcabuz. Foi lá, entre os feridos, que ele fez as observações que encheriam este livro.

A carreira que começou na barbearia terminou na corte: Paré serviu como cirurgião de quatro reis da França — Henrique II, Francisco II, Carlos IX e Henrique III. Na página de rosto desta edição, o título está gravado para sempre: “Conseiller, et premier Chirurgien du Roy” — Conselheiro e Primeiro Cirurgião do Rei.

Desde então, resolvi nunca mais queimar
tão cruelmente os pobres feridos de arcabuz.

— Ambroise Paré, sobre a campanha de Turim, 1537
II

Dez histórias que este livro guarda

Folhear as Œuvres é atravessar um dos momentos mais decisivos da história da medicina. Estas são as histórias que valem a viagem.

  1. 01

    O dia em que acabou o óleo fervente

    Turim, 1537. Para “neutralizar o veneno da pólvora”, as feridas de arcabuz eram cauterizadas com óleo fervente. Quando o óleo acabou, Paré improvisou um curativo de gema de ovo, óleo de rosas e terebintina. Na manhã seguinte, os tratados com o curativo dormiam sem dor; os cauterizados ardiam em febre. Ele nunca mais queimou um ferido.

  2. 02

    Um fio em vez do ferro em brasa

    Nas amputações, o sangramento era estancado com ferro em brasa ou óleo fervente. Paré passou a amarrar os vasos com fios — a ligadura de artérias, o mesmo princípio usado em toda cirurgia até hoje — e criou pinças como o “bec de corbin” (bico de corvo) para segurar os vasos antes de amarrá-los.

  3. 03

    O escândalo de escrever em francês

    Ciência se escrevia em latim. Paré, que mal o conhecia, escreveu em francês — para que barbeiros-cirurgiões, aprendizes e até partes do público lessem. A Faculdade de Medicina de Paris o atacou duramente. Ele respondeu que Hipócrates também escrevera na própria língua.

  4. 04

    A morte de Henrique II

    Em 1559, uma lança de torneio atravessou o visor do elmo do rei e entrou pelo seu olho. Paré e o anatomista André Vesálio foram chamados à cabeceira. Para entender o ferimento, fragmentos de lança foram cravados em cabeças de criminosos decapitados. O rei morreu onze dias depois — e a França nunca mais foi a mesma.

  5. 05

    A Noite de São Bartolomeu

    Paré era huguenote — protestante na Paris católica de 1572. Na noite da matança de São Bartolomeu, milhares de huguenotes foram assassinados. Segundo a tradição, o próprio Carlos IX o protegeu: não seria razoável perder um homem capaz de salvar tanta gente.

  6. 06

    O experimento do bezoar

    O bezoar — pedra extraída do estômago de cabras — era vendido a peso de ouro como antídoto universal. Paré testou a crença num cozinheiro condenado à morte por roubo: veneno, seguido de bezoar. O homem morreu em agonia horas depois. Estava desfeito o mito, num dos primeiros ensaios clínicos de que se tem notícia.

  7. 07

    O livro dos monstros

    Os dois últimos livros das Œuvres catalogam “monstros e prodígios”: gêmeos unidos, crianças com feições de animais, tritões e sereias. Paré buscava causas naturais para o que a época via como presságios — foi um dos fundadores da teratologia, a ciência das malformações.

  8. 08

    Mãos de ferro, pernas articuladas

    Para os mutilados de guerra, Paré desenhou próteses funcionais: pernas com articulações e a célebre mão mecânica de ferro feita por um serralheiro conhecido como “le petit Lorrain”, com engrenagens que permitiam fechar os dedos. Séculos à frente da própria época.

  9. 09

    A versão podálica

    Na obstetrícia, Paré reintroduziu uma manobra antiga: girar o bebê dentro do útero para que nasça pelos pés, em partos que seriam fatais para mãe e criança. A técnica, praticada desde a Antiguidade e quase esquecida, voltou a salvar vidas por sua causa.

  10. 10

    “Eu o tratei; Deus o curou.”

    A frase atribuída a Paré — “Je le pansay, Dieu le guarist” — resume a humildade de quem via os limites da própria arte: o cirurgião cuida, trata, dá condições. Quem cura é a natureza. É talvez a frase mais citada da história da cirurgia.

III

Por dentro do livro

As Œuvres foram feitas para ser vistas: centenas de xilogravuras explicavam ao cirurgião do século XVI onde cortar, o que amarrar, como montar um aparelho — e que criaturas estranhas o mundo escondia. Estas páginas vêm da edição de 1585. Toque em qualquer uma para ampliar.

IV

A edição de 1585

As Œuvres apareceram pela primeira vez em 1575 e foram um sucesso imediato: novas edições saíram em 1579 e 1582, sempre corrigidas e aumentadas. A de 1585, impressa por Gabriel Buon, é a quarta — e a última que Paré, já septuagenário, reviu pessoalmente. Ele morreria cinco anos depois, em dezembro de 1590.

O volume é um in-fólio — o formato mais nobre da tipografia renascentista — dividido em vinte e oito livros: anatomia, feridas, tumores, fraturas e luxações, venenos, peste, geração, monstros, farmácia e as célebres Viagens, suas memórias de campanha. A dedicatória é dirigida ao rei Henrique III, “cristianíssimo rei da França e da Polônia”. O privilégio real que protegia a obra contra cópias termina com a data em que a impressão foi concluída: 19 de abril de 1585.

  • 28livros
  • ~1.175páginas impressas
  • edição — a última em vida
  • 50anos de cirurgia em um volume

Ter na mão um objeto como este é tocar o momento exato em que a cirurgia deixou de ser ofício de botica e começou a virar ciência — escrita na língua de todos, ilustrada para quem trabalha com as mãos.

Capa do livro Uma Breve História da Cirurgia, do Dr. Alexandre Amato

A história não parou em 1585

Do ferro em brasa aos robôs cirúrgicos

A jornada que Paré começou neste volume continua em Uma Breve História da Cirurgia — o meu livro sobre cinco mil anos do ofício de abrir o corpo humano e devolvê-lo inteiro.

Conhecer o livro

Je le pansay,

Dieu le guarist.

Eu o tratei; Deus o curou.